domingo, 24 de setembro de 2017

A edição genética poderia criar uma classe social superior


Oncologista que ganhou Pulitzer reflete sobre como genética vai acabar com o mundo que conhecemos.



     O que acontece quando uma máquina aprende a ler e escrever seu próprio manual de instruções? Esta é a pergunta que Siddhartha Mukherjee[1] (Nova Délhi, Índia, 1970), quer responder com seu último livro.

Segue sua entrevista:

Pergunta. Os nazistas utilizaram a poderosa ideia da genética para justificar seus delírios de limpeza racial e os soviéticos a rechaçaram, negando toda evidência científica, porque a consideravam uma ideia burguesa. Você reconhece agora o uso dessa ideia científica como justificativa para determinadas ideologias?
Resposta. A eugenia privatizada não é diferente da imposta pelo Estado. Só mudam os atores. Um dos últimos desenhos no livro [em que aparece uma família chinesa que só tem filhos homens] mostra o que acontece às populações humanas quando se privatiza a capacidade das pessoas de tomar decisões sobre as características genéticas de seus filhos. Que tenhamos desmantelado a eugenia estatal não significa que não sejamos capazes de propor as mesmas escolhas individualmente, e é igualmente perigoso.

P. Se conseguimos desenvolver uma tecnologia para melhorar os humanos, tornando-os mais inteligentes ou mais bonitos, é possível evitar que as pessoas façam isso com seus filhos?
R. Acho que estamos rumando lentamente para uma nova era. Há três meses, a Academia Nacional de Medicina dos EUA tomou uma decisão muito interessante e muito importante. Estava-se debatendo se as alterações genéticas podiam ser permitidas em espermatozoides, óvulos e embriões humanos. Até agora, no Ocidente, decidimos que a engenharia genética é aceitável em células humanas desde que não mude permanentemente o genoma humano. Se em seu corpo você muda as células do sangue ou os neurônios ou as células do câncer, tudo isso não faz com que as mudanças se tornem parte permanente do genoma humano. Com Crispr [uma nova ferramenta de edição do genoma] e outras tecnologias estamos chegando ao ponto em que podemos nos perguntar se deveríamos editar o genoma humano de forma permanente. E a academia decidiu permitir isso. Mas há algumas limitações. A primeira, a de que deveria haver uma relação causal entre o gene e o objetivo que tentamos alcançar. A maioria dos traços humanos têm sua origem em vários genes, efeitos ambientais, o acaso... Mas alguns são muito autônomos e para essas doenças em que há uma causa direta entre gene e a doença poderíamos tornar essas mudanças permanentes. A segunda limitação é mais complicada. Diz que se permitiria realizar essas mudanças se houver um sofrimento extraordinário que se quer evitar. Mas sofrimento extraordinário segundo quem? Quem vai estabelecer os limites? É um sofrimento extraordinário ser mulher em uma sociedade em que se pode enfrentar uma discriminação pavorosa? Definiríamos o sofrimento extraordinário segundo uma doença? Ou perguntando às pessoas se estão sofrendo, se querem continuar vivendo assim? É uma decisão muito complicada e no fim tem a ver com quem somos, como nos definimos.

P. No livro, você fala dos problemas mentais hereditários que sofreu em sua família. Se tivesse a possibilidade de eliminar esse problema com edição genética, o faria?
R. Não tenho nenhuma dúvida de que no futuro será possível encontrar uma relação entre doenças como a esquizofrenia ou o transtorno bipolar e talvez 10 ou 20 variantes de genes que, combinados, podem predizer que o risco de alguém sofrer essas doenças se multiplica por 10 ou 20. Uma vez que começarmos a conhecer essas combinações, o que vamos fazer? Imagine um experimento no qual sequenciamos 10 ou 15 milhões de genomas humanos e, depois, para cada um desses 15 milhões, registramos as vidas dessas pessoas. Em seguida utilizamos técnicas de computação para cruzar essas informações e começamos a entender bem como essas combinações de genes – ou até mesmo a combinação desses genes com fatores ambientais – aumentam ou diminuem o risco de sofrer determinadas doenças. No final, você pode imaginar como em uma família como a minha, 10 variantes genéticas em combinação multiplicam por 10 o risco de uma doença terrível. Você sequenciaria o genoma de seus filhos para ver qual carrega esse risco?

P. Se eu puder fazer algo a respeito, seguramente sim. Se não, preferiria não saber. Já fazemos isso com a síndrome de Down, mas poderíamos começar a descartar particularidades genéticas muito mais sutis.
R. Depende do que você considere poder fazer algo a respeito ou mudar algo. Uma das possibilidades, que teremos à disposição logo, pode ser algo como selecionar embriões e só implantar aqueles que não têm determinadas combinações de genes.

P. Mas já fazemos isso. Quase não nascem mais pessoas com síndrome de Down.
R. Verdade. Já fazemos isso com as trissomias [presença de três cromossomos e não dois como seria o normal], mas poderíamos fazer com particularidade genéticas muito mais sutis. Acho que só veremos isso daqui a 10 ou 15 anos.

P. E você concorda com isso?
R. Não estou seguro de que tenhamos nem a compreensão científica nem humanística do que vai acontecer uma vez que comecemos a adotar essas tecnologias. Acredito que o público crê que os genes produzem características, que são iguais a características, e claramente esse não é o caso. Agora sabemos que para a maioria das características humanas o normal é que vários genes ajam em conjunto e que o ambiente desempenhe um papel muito importante. Tampouco creio que tenhamos uma compreensão humanística sobre o tipo de mundo em que viveremos uma vez que começarmos a levar a cabo esse tipo de manipulação. O que aconteceria se essas tecnologias só estivessem disponíveis para os ricos? Teríamos uma sociedade que não só estaria dividida por uma brecha econômica como também as novas tecnologias criariam uma subclasse genética. Me parece que o perigo é enorme. Não sou pessimista sobre o poder de utilizar essas tecnologias genéticas tão potentes para curar doenças, mas também creio que todos nós deveríamos parar para pensar antes de avançar com demasiada rapidez em direção a esse futuro.

P. Quando se fala de edição genética, parece aceitável empregá-la para curar uma doença, mas há mais dúvidas se a intenção é melhorar alguém que já está bem.
R. O que você está perguntando é onde está a fronteira entre a doença e a normalidade. Essa linha mudou durante nossa própria vida. A homossexualidade era considerada uma doença até pouco tempo atrás. Vinte anos depois, no ocidente, percebemos que é fundamentalmente uma variação humana. Em muitas sociedades ainda é considerada uma doença e você pode ser morto por causa disso. As linhas entre a normalidade e a doença são flexíveis. A pergunta é como começaremos a saber o que significa um sofrimento extraordinário para você. Quem pode definir isso? O Estado vai fazer uma lista. As linhas são flexíveis. Quem vai delimitá-las? Não conheço as respostas mas sei que não cabe aos cientistas responder a essas perguntas sozinhos. Estamos capacitados para desenvolver uma tecnologia, para explorar a natureza e criar novas tecnologias. Mas não estamos preparados para compreender as imensas implicações dessas tecnologias, particularmente do genoma humano, que é o que mais temos de humano. Nossa decisão para intervir nisso não pode ser tomada apenas por cientistas. Tem que ser um processo político muito mais amplo. E para fazer isso precisamos do vocabulário, dos antecedentes, da história, e precisamos compreender as limitações e pensar sobre o futuro. É disso que o livro fala.

P. Jennifer Doudna, uma das criadoras do sistema de edição Crispr, disse ser uma sorte o fato de não conhecermos em detalhes a origem genética de traços complexos como a inteligência, porque isso tornaria impossível um programa de melhoria humana. Há conhecimentos que é melhor não obtermos?
R. Eu também tenho um conflito com essa pergunta. Acho que dizer que certo conhecimento é perigoso leva imediatamente alguém a buscá-lo e disseminá-lo, o que o torna mais sedutor. Por outro lado, creio que há ideias que são fundamentalmente perigosas, e precisamos de uma compreensão profundamente humanística dessas ideias antes de começarmos a explorá-las como se fosse algo sem maior relevância.
Um exemplo: a inteligência é um conceito popular com uma longa história, que em parte também é depreciável. Depreciável porque uma das capacidades que os nazistas queriam medir e melhorar era justamente essa. Mas agora é um conceito popular, o utilizamos em conversas informais. Quando os cientistas utilizam a palavra inteligência, têm que pegar esse conceito e fazer um código e convertê-lo em algo que se possa definir e medir. No momento em que dissermos que a inteligência é algo sobre o que não se pode falar, alguns cientistas dirão: ‘Não, vou estudar justamente esse problema’.
O que quero fazer com esse livro é dar um passo atrás e pensar na linhagem desse conceito popular do gene, de onde ele vem, como se utilizava no passado, se estamos utilizando com precisão quando um cientista transforma esse conceito popular em uma medida.
Minha ideia não é restringir o conhecimento, não acredito nisso. Minha ideia é explorar desde o fundamental como obtemos o conhecimento, o que significam as palavras. Para que quando comecemos a utilizar palavras como inteligência, reconheçamos que há uma história por trás do uso dessa palavra na ciência, e que se vamos ter um debate público pediria que paremos um segundo e falemos sobre a transformação de um conceito popular em uma medida científica. Porque se não reconhecermos essa transição, cometeremos muitos erros horríveis. Não quero restringir o conhecimento, mas sim reconhecer a anatomia do conhecimento.



[1] vencedor do prêmio Pulitzer em 2010 por sua biografia do Câncer: O imperador de todos os males (Companhia das Letras). Em O gene: uma história íntima (Companhia das Letras), este oncologista entrelaça três narrativas como em uma tripla hélice: uma pessoa, em torno de sua própria família, afetada por doenças mentais hereditárias; uma história que acompanha os cientistas e as experiências que deram origem à genética moderna; e uma chamada de atenção sobre como as tecnologias derivadas desse conhecimento podem mudar a sociedade, e a discussão necessária para que não tenhamos de nos arrepender do que aprendemos. Os testes genéticos permitiram descobrir mutações que podem predispor a sofrer um tumor e em muitos casos melhorou o prognóstico. No entanto, também se corre o risco de transformar o câncer em uma instituição total na qual o paciente é “constantemente vigiado” e a quem se recorda com frequência demais a ameaça da morte. É um caso em que o conhecimento do genoma pode condicionar a forma de viver nossa vida.

terça-feira, 20 de junho de 2017

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Sistema Excretor/Urinário (1º ANO)

  Os slides a seguir servem como auxílio na compreensão dos conceitos estudados na aula de Biologia sobre o Sistema Excretor/Urinário Humano.


segunda-feira, 12 de junho de 2017

Gametogênese, Fecundação e Desenvolvimento Embrionário (3º ANO)

   Os slides a seguir exemplificam os assuntos trabalhados em sala de aula e servem como auxílio na compreensão dos conceitos estudados.



             Os vídeos complementam e ilustram as informações vistas.





quarta-feira, 7 de junho de 2017

RELATÓRIO DOS TRABALHOS PARA FEIRA DE CIÊNCIAS – IEEBA – CURSO NORMAL


1 Capa 
Deve conter Nome da instituição; Título, Participantes; data e cidade/RS
a) FOLHA DE ROSTO COM DADOS DE IDENTIFICAÇÃO
· Título do projeto
· Instituição, Curso, Turma
· Nome do(s) Estudante(s) (por ordem alfabética)
· Área do projeto (Ciências da Natureza)
2 Desenvolvimento do Projeto
a) SUMÁRIO (ordenação dos assuntos com as respectivas páginas)
b) RESUMO
c) CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO
A introdução deve explicar o relatório, deve fazer com que a pessoa que irá ler o trabalho compreenda o assunto que será desenvolvido e saiba o que foi investigado pelo grupo. Na introdução, é importante definir o assunto da pesquisa e resumir o caminho seguido.
d) CAPÍTULO 2 – OBJETIVOS, QUESTÃO DE PESQUISA E RELEVÂNCIA DA PESQUISA
Neste capítulo, deve-se apresentar a questão de pesquisa, a situação-problema que o trabalho pretende responder. Apresentar o que se pretende realizar com a pesquisa e o que se esperara alcançar.
e) CAPÍTULO 3 – METODOLOGIA
Descrever com detalhes como foram realizadas as observações, as coletas de dados e as pesquisas bibliográficas.
f) CAPÍTULO 4 – APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Apresentar tudo o que coletaram de dados e que podem ser expressos em forma de tabelas e gráficos. Neste item, é necessário descrever os dados obtidos. A discussão dos resultados deve apresentar ao leitor a linha de pensamento do grupo, ou seja, devem apresentar relações entre os resultados encontrados. Podem também comparar os resultados encontrados com resultados de outras pesquisas.
g) CAPÍTULO 5 – CONCLUSÕES
Deve se resumir de maneira breve e específica os resultados. Esclarecer se o objetivo proposto foi alcançado ou não. Esse também é o espaço para sugerir pesquisas futuras sobre o tema.
h) REFERÊNCIAS
Este capítulo deve constar todas as referências utilizadas. Devem ser apresentadas em ordem alfabética e seguindo as normas de elaboração de referência. 


Orientações para o relatório:
· Fonte: Arial, tamanho 12.
· Alinhamento: o trabalho deverá ser justificado à direita e à esquerda, com exceção do título e subtítulos que devem ser alinhados à esquerda; já o nome dos autores deve ser alinhado à direita.
· Espaçamento: entre linhas 1,5 linhas. Deixar um espaço entre o título, o nome dos autores e início de cada seção.
· Numeração das páginas.
· Não utilizar cabeçalhos e notas de rodapé: se for preciso utilizar notas que deverão ir ao final do trabalho após as referências.
· Titulo do trabalho: centralizado em maiúscula e negritado.
· Resumo: deve vir depois dos dados dos autores deixando uma linha em branco. Não poderá ultrapassar 250 palavras. Espaçamento simples e vir acompanhado de 3 a 5 palavras-chave, separadas entre si por ponto e finalizadas também por ponto.
· Recuo de parágrafo: a primeira linha de cada parágrafo deve ser recuado em 1,25 centímetros.
· Referências: por ordem alfabética de sobrenome do autor, seguindo as normas da ABNT.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Trabalho de Biologia - 2º Ano

Ciência e Ética: o legado de Darwin

Introdução 
  As descobertas científicas do último século sobre as relações entre indivíduos e espécies, especialmente o legado de Charles Darwin, parecem ainda não ter fecundado nossa moralidade cotidiana.
  As conclusões de Darwin permitem que estruturemos nossa noção do que é a vida com base na ideia de mutação. Este conhecimento, obviamente, não é uma descoberta darwiniana. São diversas as correntes de pensamento, algumas milenares, baseadas nas ideias de impermanência e interdependência. Mas a contribuição de Darwin vai além disto.
  Apesar destas duas características da natureza – impermanência e interdependência – serem facilmente observáveis, internalizá-las de modo a estruturarem nossos hábitos, nossos padrões de funcionamento mental, nossos túneis de realidade, incluindo aí nossa moralidade, gerando um distanciamento do egoísmo pautado unicamente pela auto-sobrevivência, parece não ser assim tão fácil, principalmente em um modelo de civilização arrogante como o nosso, cuja crença central é a de que toda a natureza é subserviente aos propósitos humanos e que podemos reorganizá-la e alterá-la ao nosso bel prazer, inclusive selecionando as espécies que “merecem” permanecer vivas.

Não somos o centro do universo
  Os modelos antropocêntricos e desenvolvimentistas majoritários no pensamento científico marcaram a interpretação comum do legado de Darwin:
  “Há duas maneiras nas quais a ideia de evolução tem sido mal utilizada. Uma é a maneira otimista que fala que tudo está ficando melhor e melhor, e nós devemos ir juntos com isto – esta evolução é uma espécie de escada que pode nos levar a qualquer lugar. Esta era a visão de Lamarck e Hubert Spencer. A ideia de que o crescimento – por exemplo, crescimento econômico – é natural e requerido – é uma ideia mítica. Isto não pode estar certo, porque as coisas não crescem indefinidamente; elas crescem até estarem grandes o suficiente. (…) Darwin nunca usou a palavra evolução (…). E as pessoas acham que isto é Darwinismo, e que isto é uma grande descoberta científica. O que isto é, é mito, e se alguém disser que é um mito de criação, eu suponho que seja, no sentido de que é uma das histórias que diferentes culturas possuem para explicar porque as coisas são como são dizendo como elas eram antes. A outra grande má compreensão é uma que diz que o universo é regido pela competição hostil entre os indivíduos. Isto também não é Darwin. (…) Esta é uma fantasia sobre como a vida foi feita, porque os organismos cooperam constantemente. Os pequenos pedaços em nossas células eram originalmente organismos separados, que começaram a trabalhar juntos. Se não houver um conjunto enorme de cooperações deste tipo, não se pode ter organismos de modo algum”. (1)
  Retirando do pensamento de Darwin a interpretação centrada na competição hostil e no obrigatório progresso, o que sobra?
  Darwin acoplou à antiga percepção da vida como eterna transformação a ideia de seleção natural. Com os posteriores avanços da Genética, chegou-se à proposição de que cada novo ser nascido recebe informações genéticas de seus “progenitores” (pais e mães em animais sexuados, mas também por outros meios, incluindo os meios vegetais). Neste percurso ocorrem mutações nos genes, gerando características que não existiam antes. Estas mutações podem significar algo bom ou algo ruim para o novo ser. Isto é, podem ajudar ou atrapalhar a adaptação deste ser às condições ambientais e modos de vida possíveis em seu tempo e lugar. Se uma mutação trouxer benefícios, provavelmente o animal/vegetal será bem sucedido em sua sobrevivência e reproduzirá mais que os outros. À medida que mais gerações de seres forem nascendo com esta nova característica, permitindo maior adaptabilidade ao ambiente e maior facilidade de sobrevivência, criando a possibilidade de maior tempo de vida e número de reproduções do que os que não a possuem, tal característica tenderá a ser o padrão em tal espécie. Muitas mutações ao longo do tempo acabam criando uma nova espécie (quando os membros desta não conseguirem mais se reproduzir com os membros da espécie antiga). Novas espécies também são geradas por mudanças geográficas, já que em cada lugar, dadas as especificidades ambientais, características diferentes são benéficas e seres diferentes acabam surgindo.
  Este conhecimento nos reposiciona no mundo: somos apenas uma das espécies que vêm surgindo e se transformando desde mais ou menos 3,7 bilhões de anos atrás, quando as primeiras bactérias parecem ter surgido. Compartilhamos ancestrais comuns com as demais espécies e com elas possuímos proximidade genética.
  O processo de surgimento, transformação e extinção de espécies é, portanto, altamente complexo. Mais de 99% das espécies que já passaram pela Terra já foram extintas (2), e isso não se deve ao comportamento destrutivo humano (ainda que este tenha acelerado o processo nas últimas décadas). São bilhões de anos de surgimento e desaparecimento de espécies devido às incontáveis relações entre espécies e entre as espécies e os ambientes.
  Entender que a vida é algo que se recria a cada momento de forma interdependente, onde todas as espécies são partes igualmente importantes, nos leva a alterar valores (3): o ser humano não é o centro do universo. Não somos a espécie mais importante da Terra. As outras espécies não foram criadas para nosso uso. Convivemos no mesmo momento da história da vida que todos os outros seres vivos atualmente existentes.
  Somos todos parte de uma rede inacreditavelmente imensa de seres vivos que cumprem seus papéis nesse estupendo conjunto de relações que é a vida. Nenhum ser é independente ou mais importante que outro.
  Esta compreensão deveria fazer desabar o edifício antropocêntrico e especista de nossas ciências e moralidades, mas parcela considerável da humanidade continua crendo que quem não possui o tipo de razão, linguagem e pensamento abstrato que possuímos não merece o mesmo respeito que nós gostamos de merecer.
  Nós mesmos não somos apenas nós mesmos. “Cada um de nós é uma grande cidade de células, e cada célula, uma cidade de bactérias. Somos uma grande megalópole de bactérias” (4). Sem estas bactérias o organismo humano seria impossível. O que justifica nossa arrogância?

Ciência e Ética  

  Quanto mais conheço sobre a história da vida no planeta, mais profundo fica meu respeito. É difícil para nós pensar na escala de tempo desta história. Bilhões de anos! Nossa mente não está adaptada para pensar nesta proporção. Pensar quantas espécies surgiram e desapareceram, quantas extinções em massa já houveram, quantas explosões de vida já ocorreram, quantas vezes a vida saiu e voltou totalmente para as águas. É difícil perceber o quanto pequena é nossa participação nesta história (ainda que nosso poder destrutivo e criativo não seja nada pequeno), mas é preciso.
  Para arquitetarmos nossos juízos éticos é importante ter em alta conta as incontáveis relações entre todos os seres vivos. Pensar que as mitocôndrias de nossas células já foram bactérias independentes (e até hoje possuem seus próprios DNAs, diferentes dos nossos). Pensar em todas as relações entre bactérias e vegetais, como as do gênero Rhizobium, que permitem que as raízes das plantas absorvam nitrogênio da atmosfera e existam. Enfim, contemplar os incríveis e gigantescos processos de adaptações e relações, do nível dos genes ao dos ecossistemas. Conjuntos e mais conjuntos de relações.
  Se esta magnanimidade não nos criar um profundo senso de respeito, não sei o que poderia criar.
  Este maravilhamento, que parece ser o ponto de partida tanto das ciências quanto das religiões, e esta noção – ainda que limitada – sobre tudo o que já ocorreu e continua ocorrendo para que a vida exista deveria estar no fundamento de nossa moralidade no que se refere ao modo de nos relacionar com o mundo no qual fazemos parte, com nossa natureza.
  O objetivo maior das ciências, portanto, deveria ser aumentar nossa consciência sobre o mundo para vivermos vidas pautadas em princípios mais nobres, dignos e respeitosos, e não o “conhecer para dominar”, tão típico destas áreas do pensamento humano.
  Conhecer melhor a alteridade nos ajuda a sabermos como agir em relação a ela. Assim, no fundamento do processo de conhecimento há um profundo questionamento ético, e é mais do que urgente que fundamentemos e vivamos nossa dimensão ecológica de modo eticamente aceitável. Está aí o desafio para que nossas ciências percebam o papel nefasto que têm cumprido nos últimos séculos e religuem-se ao nobre papel do conhecimento na geração de sabedoria. Que nossas ciências possam sair das trevas da ignorância.

Notas
(1) Traduzido pelo autor de entrevista disponível em
http://www.sheilaheti.net/midgley.html.
(2) DAWKINS, Richard: Desvendando o Arco-Íris: ciência, ilusão e encantamento. São Paulo, Companhia das Letras, 2000, p. 107.
(3) Assim como a Astronomia, a Geologia e todos estes conhecimentos sobre como o Universo, a Terra e a Vida vieram a ser como são, que nos permitem nos comparar, nos repensar e nos colocar em nosso devido lugar no universo (o que não é sinônimo de nos considerarmos sem valor).
(4) DAWKINS, Richard: Desvendando o Arco-Íris: ciência, ilusão e encantamento. São Paulo, Companhia das Letras, 2000, p. 27.

(Texto adaptado pela professora. Publicado em 08 de dezembro de 2012. Disponível em: http://www.anda.jor.br/08/12/2012/ciencia-e-etica-darwin)


Após ler o texto, responda as questões:
1) Qual a ideia principal do texto? Explique com suas palavras.
2) Explique a afirmação: “Não somos o centro do universo”.
3) O que você sabe da teoria da Seleção Natural de Darwin?
4) Como pode ser comprovada a teoria de Darwin? Justifique sua resposta.
5) Que outras teorias evolutivas existem? Fale resumidamente sobre eles e dê sua opinião.




Data de entrega: 23/05/2017.