segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Alysson Muotri: o criador de cérebros Conheça o biólogo brasileiro que busca uma cura para o autismo fabricando minicérebros – e, no tempo livre, investiga o pensamento dos neandertais e as origens da nossa personalidade.

Por Bruno Vaiano, 24 out 2018, Atualizado em 26 out 2018. Disponível em: https://super.abril.com.br/especiais/alysson-muotri-o-criador-de-cerebros/


     Quem quer ser da equipe de Alysson Muotri – que desde 2008 chefia um laboratório com 23 pessoas na Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD) – pode enviar o currículo pelo site oficial. Mas, atenção: o link “trabalhe conosco” é ilustrado por um recorte de jornal amarelado, com um anúncio de emprego peculiar: “Procuram-se candidatos. Jornada arriscada, salários baixos, frio cortante, longos meses de absoluta escuridão, perigo constante. O retorno a salvo é duvidoso. Honra e reconhecimento em caso de sucesso.”

     Quem assina é o inglês Ernest Shackleton, líder de duas expedições à Antártida na primeira década do século 20. Reza a lenda que ele de fato convocou voluntários nos classificados do jornal Times – mas há quem suspeite que essa pequena pérola seja uma fraude, já que não foi encontrada nos arquivos da publicação britânica. Fraude ou não, Muotri não poderia ter escolhido uma piadinha melhor para definir sua filosofia de trabalho. De sua bancada, já saíram minicérebros autistas curados. Minicérebros com Zika vírus. E, num toque de ficção científica, minicérebros neandertais comandando robôs de quatro patas.

      Um “minicérebro” é um conjunto de células neuronais criado em laboratório – para que o cientista possa simular (e estudar) as reações de um cérebro real sem ter de abrir a cabeça de alguém. Pesquisa de ponta? Claro. Arriscado? De certa forma. Mas honra e reconhecimento não faltam: trabalhando na vanguarda da genética e da neurociência, Muotri é o biólogo brasileiro que publica o maior número de artigos científicos de impacto atualmente.

Imagem sem crédito e fonte Alysson Muotri, 44, nascido em São Paulo, em seu laboratório na Universidade da Califórnia em San Diego (UCDS). (Universidade da Califórnia em San Diego/Divulgação)

     Graduado em biologia na Unicamp, Muotri foi à USP em 2000 fazer doutorado orientado por Carlos Menck, um reconhecido geneticista brasileiro. Depois, bateu na porta do Instituto Salk, o mais importante centro de pesquisas biomédicas do mundo, e convenceu Fred Gage, uma lenda viva da neurociência, a adotá-lo para um pós-doutorado. Em 2008, ganhou o cargo de professor e o laboratório na UCSD – onde tem liberdade para fazer qualquer estripulia genética – desde que seja, em suas palavras, “legal o suficiente”. Para entender o trabalho de Muotri – e por que ele é tão importante –, precisamos primeiro entender o habitat natural dos pensamentos: as células.

Cidades invisíveis
O minúsculo mundo das células

     Células são pacotinhos microscópicos de consistência oleosa no interior dos quais ocorrem as reações bioquímicas que chamamos de vida. Seres simples, como as bactérias, consistem em uma única célula. Seres complexos, como você, são aglomerados de 37,2 trilhões de células. 37,2 trilhões é o número de segundos que se passaram desde que o Homo erectus, um ancestral remoto do ser humano, saiu da África pela primeira vez e deu origem aos neandertais. O fato de que é necessário esse tanto de células para formar um pedaço de carne de mais ou menos 1,7 m dá uma boa noção do quanto elas são minúsculas.

     Células não têm consciência, ambições ou desejos, o que torna especialmente assustador o fato de que cada uma delas sabe exatamente o que fazer para construir e operar seu corpo, desde o dia em que você foi concebido. Todas começam como células-tronco embrionárias, com potencial para exercer qualquer função. Conforme se multiplicam, algumas tiram a sorte grande e se especializam para gerar seu coração. Outras se relegam resilientemente ao papel de vesícula biliar. Elas sabem o que fazer porque cada uma contém, em seu núcleo, uma cópia completa do seu genoma – o manual de instruções que dá o passo a passo para montar um ser humano.

   Vejamos o caso das células do fígado. Para se tornarem bons e confiáveis fígados, elas só precisariam dos genes que têm a ver… bem, com o fígado. Mesmo assim, elas carregam os genes para todo o resto. Cada um dos nossos cerca de 30 mil genes é ativado em sequências diferentes para formar tudo, do dedão do pé ao tímpano, em uma ação coordenada muitas vezes mais complexa que a de um maestro marcando a entrada e saída de cada instrumento da orquestra. Com a diferença de que não há maestro. A partitura do corpo, o genoma, se lê sozinha. Muotri, então, é uma espécie de maestro. Que consegue reger (e reverter) esse processo celular à sua maneira. E usá-lo a nosso favor.

      Foi assim que, em 2010, ele foi capa da Cell, uma das revistas científicas mais influentes do mundo. Sua pesquisa consistiu no seguinte: primeiro, Muotri extraiu um tipo de célula chamado fibroblasto de uma pessoa com síndrome de Rett, uma forma grave de autismo. Depois, deu marcha a ré no desenvolvimento dessa célula, até ela voltar ao estágio embrionário. Então forçou-a a se tornar um neurônio, uma célula do cérebro. Esse neurônio era “autista”, já que veio de um paciente com síndrome de Rett. E era essa mesmo a ideia, porque o próximo passo seria curar o neurônio.

     O processo de transformar uma célula em outra é chamado de “reprogramação celular”, e em 2012 rendeu um Prêmio Nobel a seu inventor, o japonês Shinya Yamanaka. Alysson, inspirado por ele, se tornou um ninja da reprogramação. E foi o primeiro que teve a ideia de usá-la para criar células propositalmente doentes, para então tentar curá-las e descobrir novos remédios no processo. Esse era só o começo. Logo ele descobriu como incentivar a multiplicação desses neurônios feitos sob medida para estudar doenças. E um conjunto de neurônios tem nome: cérebro. Muotri passou a construir minicérebros.
(Tayrine Cruz/Superinteressante)

O mini e o cérebro
Em busca de uma cura para o autismo

       Um minicérebro é um punhado de neurônios do tamanho de uma ervilha. Sua função é ser uma maquete viva. O dito-cujo não consegue crescer muito, pois não tem vasos sanguíneos para irrigá-lo (sustentar um órgão sem sangue é como abastecer um prédio com água sem instalar encanamento – até dá, mas a eficiência é quase zero). O minicérebro, até onde sabemos, não é grande nem complexo o suficiente para manifestar consciência. E também não se especializa: ao contrário das repartições de um cérebro real, que se dedicam a falar, armazenar memórias ou interpretar estímulos visuais, o minicérebro é uma folha em branco: pode ser o que Muotri quiser, basta estimulá-lo para tal.

       Essas miniaturas demoram exatamente nove meses para amadurecer, e como um ser humano, atingem o ápice da atividade elétrica no momento em que deveriam nascer – caso estivessem no útero, dentro de um crânio, é claro. Daí para a frente, a vida é longa: alguns estão com Muotri há três anos. Curar minicérebros doentes é parecido com curar cérebros reais, e por isso eles são modelos úteis para testar uma infinidade de drogas para problemas neurológicos – mais úteis do que ratos de laboratório. Com eles, os testes clínicos ficam mais rápidos e as drogas chegam mais cedo ao mercado: o remédio que curou o neurônio com síndrome de Rett em 2010 já está sendo aprovado para uso em humanos.

       Em 2013, Muotri propôs ao governo federal a implantação de um instituto de pesquisas sobre autismo no Brasil. O projeto não saiu do papel com recursos públicos, então ele e seus colegas partiram para a iniciativa privada e fundaram a Tismoo – uma start-up de cunho social com escritórios nos EUA, no Brasil e em Portugal. O objetivo da Tismoo é simples: criar minicérebros de pacientes autistas e usá-los como cobaias para testar tratamentos personalizados.

        Em 2013, no governo Dilma, Muotri, em parceira com um grupo de ativistas, propôs ao governo federal a implantação de instituto de pesquisas sobre autismo no Brasil. O projeto não saiu do papel com recursos públicos, então eles partiram para iniciativa privada e fundaram a Tismoo – uma start-up sem fins lucrativos com escritórios dos EUA, no Brasil e em Portugal. O objetivo da Tismoo é simples: criar minicérebros de pacientes autistas e usá-los como cobaias para testar tratamentos personalizados em laboratório. Quando o tratamento ideal é encontrado, ele pode ser aplicado à pessoa de verdade.
(Tayrine Cruz/Superinteressante)

Neanderbrains
Pensamentos pré-históricos
       Os minicérebros não servem só para a pesquisa médica. Recentemente, arqueólogos do Instituto Max Plank, na Alemanha, conseguiram isolar e sequenciar fragmentos de DNA de neandertais, nossos primos do gênero Homo extintos há 30 mil anos. Muotri pegou um desses genes, diretamente associado ao desenvolvimento cerebral, e usou a técnica de edição genética CRISPr/Cas9 para enxertá-lo no código genético de um neurônio comum. Bingo: surgiram células cerebrais híbridas, meio humanas, meio neandertais.

     Logo de cara, ele viu algo estranho: diferentemente dos minicérebros tradicionais, que são redondinhos, os de neandertais lembram pipocas – aquelas da embalagem rosa. A estranheza não se limitou à aparência. “Um minicérebro de autista tem menos conexões, as redes neurais que se formam são defectivas. E a gente vê essa mesma característica nos neandertais”, diz Muotri. De fato, há indícios arqueológicos de que neandertais eram menos sociáveis (viviam em grupos pequenos) e tinham uma capacidade cognitiva menor que a dos humanos modernos, mesmo contando com cérebros maiores.

       Para dar prosseguimento à pesquisa, surgiu a ideia de atrelar as pipoquinhas neandertais a robôs quadrúpedes. Elas se conectam à engenhoca por meio de 64 eletrodos, como em um eletroencefalograma (o típico exame de desenho animado, em que fios são conectados à cabeça do paciente para analisar a atividade cerebral). A ideia é simular em laboratório o momento em que um bebê neandertal recém-nascido começaria a andar, fornecendo a ele um sistema de exploração do ambiente análogo às pernas – e, dessa forma, entender melhor como era o crescimento das crianças dessa espécie extinta. 

     No início, são os cientistas que fazem o robô andar, e os sinais elétricos correspondentes a esse movimento circulam passivamente pelo minicérebro, moldando suas conexões neurais de acordo com a tarefa. Em outras palavras, ele está aprendendo. Assim que acaba o aprendizado, o sentido do fluxo de informação se inverte, e o organóide passa a comandar suas pernas biônicas por conta própria. Sinistro. E genial. 

O que te torna você
Genes saltadores e as origens da personalidade

       Em 2005, enquanto explorava células-tronco e neurônios pela primeira vez em seu pós-doutorado no Instituto Salk, Muotri tocou, em paralelo, outra pesquisa de vanguarda. A dúvida era a seguinte: cérebros humanos são como impressões digitais: não há dois iguais. Nem em gêmeos idênticos – e essa informação faz qualquer biólogo coçar a cabeça. Afinal, gêmeos idênticos são, para todos os efeitos, clones. Como explicar as diferenças?

      Em 2005, Muotri e seu orientador, Fred Gage, mataram a charada. Eles descobriram que, enquanto um bebê se desenvolve no útero – ou mesmo depois, na vida adulta –, pedacinhos de DNA chamados “genes saltadores” vagam sem rumo no núcleo das células que compõem o cérebro, copiando e colando a si próprios. Eles embaralham o genoma em diversos pontos, alterando ligeiramente (às vezes, radicalmente) a atividade de cada uma das células.

       Muotri explica: “Se você for à África hoje, pegar dez chimpanzés e analisar o genoma deles, você vai ver que eles são altamente polimórficos – ou seja, que são muito diferentes entre si. Há mais variações no genoma desses dez chimpanzés do que no genoma da humanidade inteira. Por outro lado, se você colocar esses dez chimpanzés para fazer um teste cognitivo, todos eles vão ter mais ou menos a mesma performance. Não há um chimpanzé Einstein. Não há um chimpanzé Picasso, altamente criativo.”

       Ou seja: todas as pessoas vivas hoje, da Somália ao Japão, descendem de um único (e pequeno) grupo de Homo sapiens pré-históricos. Somos muito parecidos; nossa variedade genética é pequena. Mas ela é compensada por uma explosão de criatividade do interior do crânio. O embaralhamento do genoma por genes saltadores garante que cada cérebro seja único. E esse pode ter sido o grande segredo para a humanidade ter chegado até aqui.

      Cada ambiente exige habilidades diferentes. Se você precisa garantir a sobrevivência de seus filhos, mas o futuro é incerto, é melhor produzir filhos diferentes – e torcer para pelo menos um deles ser o ideal – do que apostar em uma solução única. Sem isso, nossa espécie talvez não tivesse colonizado quase todos os ambientes do planeta. E não teria produzido Einsteins e Picassos. Palmas, então, para os genes saltadores de Alysson Muotri. Se não fossem eles, talvez os neurônios desse cientista não estivessem conectados na medida certa para comandar um laboratório tão criativo.

domingo, 24 de setembro de 2017

A edição genética poderia criar uma classe social superior


Oncologista que ganhou Pulitzer reflete sobre como genética vai acabar com o mundo que conhecemos.



     O que acontece quando uma máquina aprende a ler e escrever seu próprio manual de instruções? Esta é a pergunta que Siddhartha Mukherjee[1] (Nova Délhi, Índia, 1970), quer responder com seu último livro.

Segue sua entrevista:

Pergunta. Os nazistas utilizaram a poderosa ideia da genética para justificar seus delírios de limpeza racial e os soviéticos a rechaçaram, negando toda evidência científica, porque a consideravam uma ideia burguesa. Você reconhece agora o uso dessa ideia científica como justificativa para determinadas ideologias?
Resposta. A eugenia privatizada não é diferente da imposta pelo Estado. Só mudam os atores. Um dos últimos desenhos no livro [em que aparece uma família chinesa que só tem filhos homens] mostra o que acontece às populações humanas quando se privatiza a capacidade das pessoas de tomar decisões sobre as características genéticas de seus filhos. Que tenhamos desmantelado a eugenia estatal não significa que não sejamos capazes de propor as mesmas escolhas individualmente, e é igualmente perigoso.

P. Se conseguimos desenvolver uma tecnologia para melhorar os humanos, tornando-os mais inteligentes ou mais bonitos, é possível evitar que as pessoas façam isso com seus filhos?
R. Acho que estamos rumando lentamente para uma nova era. Há três meses, a Academia Nacional de Medicina dos EUA tomou uma decisão muito interessante e muito importante. Estava-se debatendo se as alterações genéticas podiam ser permitidas em espermatozoides, óvulos e embriões humanos. Até agora, no Ocidente, decidimos que a engenharia genética é aceitável em células humanas desde que não mude permanentemente o genoma humano. Se em seu corpo você muda as células do sangue ou os neurônios ou as células do câncer, tudo isso não faz com que as mudanças se tornem parte permanente do genoma humano. Com Crispr [uma nova ferramenta de edição do genoma] e outras tecnologias estamos chegando ao ponto em que podemos nos perguntar se deveríamos editar o genoma humano de forma permanente. E a academia decidiu permitir isso. Mas há algumas limitações. A primeira, a de que deveria haver uma relação causal entre o gene e o objetivo que tentamos alcançar. A maioria dos traços humanos têm sua origem em vários genes, efeitos ambientais, o acaso... Mas alguns são muito autônomos e para essas doenças em que há uma causa direta entre gene e a doença poderíamos tornar essas mudanças permanentes. A segunda limitação é mais complicada. Diz que se permitiria realizar essas mudanças se houver um sofrimento extraordinário que se quer evitar. Mas sofrimento extraordinário segundo quem? Quem vai estabelecer os limites? É um sofrimento extraordinário ser mulher em uma sociedade em que se pode enfrentar uma discriminação pavorosa? Definiríamos o sofrimento extraordinário segundo uma doença? Ou perguntando às pessoas se estão sofrendo, se querem continuar vivendo assim? É uma decisão muito complicada e no fim tem a ver com quem somos, como nos definimos.

P. No livro, você fala dos problemas mentais hereditários que sofreu em sua família. Se tivesse a possibilidade de eliminar esse problema com edição genética, o faria?
R. Não tenho nenhuma dúvida de que no futuro será possível encontrar uma relação entre doenças como a esquizofrenia ou o transtorno bipolar e talvez 10 ou 20 variantes de genes que, combinados, podem predizer que o risco de alguém sofrer essas doenças se multiplica por 10 ou 20. Uma vez que começarmos a conhecer essas combinações, o que vamos fazer? Imagine um experimento no qual sequenciamos 10 ou 15 milhões de genomas humanos e, depois, para cada um desses 15 milhões, registramos as vidas dessas pessoas. Em seguida utilizamos técnicas de computação para cruzar essas informações e começamos a entender bem como essas combinações de genes – ou até mesmo a combinação desses genes com fatores ambientais – aumentam ou diminuem o risco de sofrer determinadas doenças. No final, você pode imaginar como em uma família como a minha, 10 variantes genéticas em combinação multiplicam por 10 o risco de uma doença terrível. Você sequenciaria o genoma de seus filhos para ver qual carrega esse risco?

P. Se eu puder fazer algo a respeito, seguramente sim. Se não, preferiria não saber. Já fazemos isso com a síndrome de Down, mas poderíamos começar a descartar particularidades genéticas muito mais sutis.
R. Depende do que você considere poder fazer algo a respeito ou mudar algo. Uma das possibilidades, que teremos à disposição logo, pode ser algo como selecionar embriões e só implantar aqueles que não têm determinadas combinações de genes.

P. Mas já fazemos isso. Quase não nascem mais pessoas com síndrome de Down.
R. Verdade. Já fazemos isso com as trissomias [presença de três cromossomos e não dois como seria o normal], mas poderíamos fazer com particularidade genéticas muito mais sutis. Acho que só veremos isso daqui a 10 ou 15 anos.

P. E você concorda com isso?
R. Não estou seguro de que tenhamos nem a compreensão científica nem humanística do que vai acontecer uma vez que comecemos a adotar essas tecnologias. Acredito que o público crê que os genes produzem características, que são iguais a características, e claramente esse não é o caso. Agora sabemos que para a maioria das características humanas o normal é que vários genes ajam em conjunto e que o ambiente desempenhe um papel muito importante. Tampouco creio que tenhamos uma compreensão humanística sobre o tipo de mundo em que viveremos uma vez que começarmos a levar a cabo esse tipo de manipulação. O que aconteceria se essas tecnologias só estivessem disponíveis para os ricos? Teríamos uma sociedade que não só estaria dividida por uma brecha econômica como também as novas tecnologias criariam uma subclasse genética. Me parece que o perigo é enorme. Não sou pessimista sobre o poder de utilizar essas tecnologias genéticas tão potentes para curar doenças, mas também creio que todos nós deveríamos parar para pensar antes de avançar com demasiada rapidez em direção a esse futuro.

P. Quando se fala de edição genética, parece aceitável empregá-la para curar uma doença, mas há mais dúvidas se a intenção é melhorar alguém que já está bem.
R. O que você está perguntando é onde está a fronteira entre a doença e a normalidade. Essa linha mudou durante nossa própria vida. A homossexualidade era considerada uma doença até pouco tempo atrás. Vinte anos depois, no ocidente, percebemos que é fundamentalmente uma variação humana. Em muitas sociedades ainda é considerada uma doença e você pode ser morto por causa disso. As linhas entre a normalidade e a doença são flexíveis. A pergunta é como começaremos a saber o que significa um sofrimento extraordinário para você. Quem pode definir isso? O Estado vai fazer uma lista. As linhas são flexíveis. Quem vai delimitá-las? Não conheço as respostas mas sei que não cabe aos cientistas responder a essas perguntas sozinhos. Estamos capacitados para desenvolver uma tecnologia, para explorar a natureza e criar novas tecnologias. Mas não estamos preparados para compreender as imensas implicações dessas tecnologias, particularmente do genoma humano, que é o que mais temos de humano. Nossa decisão para intervir nisso não pode ser tomada apenas por cientistas. Tem que ser um processo político muito mais amplo. E para fazer isso precisamos do vocabulário, dos antecedentes, da história, e precisamos compreender as limitações e pensar sobre o futuro. É disso que o livro fala.

P. Jennifer Doudna, uma das criadoras do sistema de edição Crispr, disse ser uma sorte o fato de não conhecermos em detalhes a origem genética de traços complexos como a inteligência, porque isso tornaria impossível um programa de melhoria humana. Há conhecimentos que é melhor não obtermos?
R. Eu também tenho um conflito com essa pergunta. Acho que dizer que certo conhecimento é perigoso leva imediatamente alguém a buscá-lo e disseminá-lo, o que o torna mais sedutor. Por outro lado, creio que há ideias que são fundamentalmente perigosas, e precisamos de uma compreensão profundamente humanística dessas ideias antes de começarmos a explorá-las como se fosse algo sem maior relevância.
Um exemplo: a inteligência é um conceito popular com uma longa história, que em parte também é depreciável. Depreciável porque uma das capacidades que os nazistas queriam medir e melhorar era justamente essa. Mas agora é um conceito popular, o utilizamos em conversas informais. Quando os cientistas utilizam a palavra inteligência, têm que pegar esse conceito e fazer um código e convertê-lo em algo que se possa definir e medir. No momento em que dissermos que a inteligência é algo sobre o que não se pode falar, alguns cientistas dirão: ‘Não, vou estudar justamente esse problema’.
O que quero fazer com esse livro é dar um passo atrás e pensar na linhagem desse conceito popular do gene, de onde ele vem, como se utilizava no passado, se estamos utilizando com precisão quando um cientista transforma esse conceito popular em uma medida.
Minha ideia não é restringir o conhecimento, não acredito nisso. Minha ideia é explorar desde o fundamental como obtemos o conhecimento, o que significam as palavras. Para que quando comecemos a utilizar palavras como inteligência, reconheçamos que há uma história por trás do uso dessa palavra na ciência, e que se vamos ter um debate público pediria que paremos um segundo e falemos sobre a transformação de um conceito popular em uma medida científica. Porque se não reconhecermos essa transição, cometeremos muitos erros horríveis. Não quero restringir o conhecimento, mas sim reconhecer a anatomia do conhecimento.



[1] vencedor do prêmio Pulitzer em 2010 por sua biografia do Câncer: O imperador de todos os males (Companhia das Letras). Em O gene: uma história íntima (Companhia das Letras), este oncologista entrelaça três narrativas como em uma tripla hélice: uma pessoa, em torno de sua própria família, afetada por doenças mentais hereditárias; uma história que acompanha os cientistas e as experiências que deram origem à genética moderna; e uma chamada de atenção sobre como as tecnologias derivadas desse conhecimento podem mudar a sociedade, e a discussão necessária para que não tenhamos de nos arrepender do que aprendemos. Os testes genéticos permitiram descobrir mutações que podem predispor a sofrer um tumor e em muitos casos melhorou o prognóstico. No entanto, também se corre o risco de transformar o câncer em uma instituição total na qual o paciente é “constantemente vigiado” e a quem se recorda com frequência demais a ameaça da morte. É um caso em que o conhecimento do genoma pode condicionar a forma de viver nossa vida.

terça-feira, 20 de junho de 2017

quarta-feira, 14 de junho de 2017

Sistema Excretor/Urinário (1º ANO)

  Os slides a seguir servem como auxílio na compreensão dos conceitos estudados na aula de Biologia sobre o Sistema Excretor/Urinário Humano.


segunda-feira, 12 de junho de 2017

Gametogênese, Fecundação e Desenvolvimento Embrionário (3º ANO)

   Os slides a seguir exemplificam os assuntos trabalhados em sala de aula e servem como auxílio na compreensão dos conceitos estudados.



             Os vídeos complementam e ilustram as informações vistas.





quarta-feira, 7 de junho de 2017

RELATÓRIO DOS TRABALHOS PARA FEIRA DE CIÊNCIAS – IEEBA – CURSO NORMAL


1 Capa 
Deve conter Nome da instituição; Título, Participantes; data e cidade/RS
a) FOLHA DE ROSTO COM DADOS DE IDENTIFICAÇÃO
· Título do projeto
· Instituição, Curso, Turma
· Nome do(s) Estudante(s) (por ordem alfabética)
· Área do projeto (Ciências da Natureza)
2 Desenvolvimento do Projeto
a) SUMÁRIO (ordenação dos assuntos com as respectivas páginas)
b) RESUMO
c) CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO
A introdução deve explicar o relatório, deve fazer com que a pessoa que irá ler o trabalho compreenda o assunto que será desenvolvido e saiba o que foi investigado pelo grupo. Na introdução, é importante definir o assunto da pesquisa e resumir o caminho seguido.
d) CAPÍTULO 2 – OBJETIVOS, QUESTÃO DE PESQUISA E RELEVÂNCIA DA PESQUISA
Neste capítulo, deve-se apresentar a questão de pesquisa, a situação-problema que o trabalho pretende responder. Apresentar o que se pretende realizar com a pesquisa e o que se esperara alcançar.
e) CAPÍTULO 3 – METODOLOGIA
Descrever com detalhes como foram realizadas as observações, as coletas de dados e as pesquisas bibliográficas.
f) CAPÍTULO 4 – APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
Apresentar tudo o que coletaram de dados e que podem ser expressos em forma de tabelas e gráficos. Neste item, é necessário descrever os dados obtidos. A discussão dos resultados deve apresentar ao leitor a linha de pensamento do grupo, ou seja, devem apresentar relações entre os resultados encontrados. Podem também comparar os resultados encontrados com resultados de outras pesquisas.
g) CAPÍTULO 5 – CONCLUSÕES
Deve se resumir de maneira breve e específica os resultados. Esclarecer se o objetivo proposto foi alcançado ou não. Esse também é o espaço para sugerir pesquisas futuras sobre o tema.
h) REFERÊNCIAS
Este capítulo deve constar todas as referências utilizadas. Devem ser apresentadas em ordem alfabética e seguindo as normas de elaboração de referência. 


Orientações para o relatório:
· Fonte: Arial, tamanho 12.
· Alinhamento: o trabalho deverá ser justificado à direita e à esquerda, com exceção do título e subtítulos que devem ser alinhados à esquerda; já o nome dos autores deve ser alinhado à direita.
· Espaçamento: entre linhas 1,5 linhas. Deixar um espaço entre o título, o nome dos autores e início de cada seção.
· Numeração das páginas.
· Não utilizar cabeçalhos e notas de rodapé: se for preciso utilizar notas que deverão ir ao final do trabalho após as referências.
· Titulo do trabalho: centralizado em maiúscula e negritado.
· Resumo: deve vir depois dos dados dos autores deixando uma linha em branco. Não poderá ultrapassar 250 palavras. Espaçamento simples e vir acompanhado de 3 a 5 palavras-chave, separadas entre si por ponto e finalizadas também por ponto.
· Recuo de parágrafo: a primeira linha de cada parágrafo deve ser recuado em 1,25 centímetros.
· Referências: por ordem alfabética de sobrenome do autor, seguindo as normas da ABNT.